Provocação dá ideias?


Um dia desses, assistindo uma live ouvi algumas coisas que me fizeram pensar bastante.


A conversa era que hoje não há no Brasil artesão com ideias diferentes. Isso me fez questionar a pessoa, que afirmou que eu também estou fazendo sempre do mesmo.


Nestes últimos tempos no artesanato, mais precisamente no amigurumi, existem diversos grupos interessadíssimos em obter o maior número possível de receitas e fico imaginando, quantas vidas precisaríamos para crochetar tudo ou, a intenção é vendê-las, pode ser né?


Fico aqui pensando sobre a necessidade de alguns artesãos em terem tantas receitas, falo daquelas que são criadas e vendidas em clubes ou avulsas,


Mas a pergunta é, se tudo que fazemos é tudo tão do mesmo porque vejo tanta receita minha, inclusive meu livro, sendo distribuída por aí? Se são tão sem sentido para essas pessoas, porque o interesse nelas?


Acredito que o que permeia essa situação é a vontade louca de gerar confusão para benefício próprio.


Uma dessas pessoas disse que quer ser uma "desinfluenciadora" aí me diz, ser isso não seria apenas não estar em nenhuma rede social? Quem não é visto não é lembrado e não influencia ninguém, ou estou equivocada?


Na verdade o discurso é o inverso daquilo que consideramos bom para humanidade como honra, respeito, tradição e cultura. Esse ambiente alimenta pessoas com carências ou falhas de caráter que se identificam com esses líderes negativos e preferem seguir um caminho mais preguiçoso, justificando sua falta de vontade em evoluir como ser humano.


Há também a exploração dessas carências. Houve um tempo bem longo, que comprávamos revistas de artesanato fazíamos as receitas e ninguém questionava. Tais revistas poderiam ser emprestadas, revendidas, receitas passadas adiante como tradição de família.


Quantos pontos de crochê, toalhinhas, blusas foram perpetuadas entre mães, filhas e avós, sem pensar em quem fez primeiro? O que no passado poderíamos pensar em se tratar de uma tradição, hoje seria visto como "pirataria"?


Precisamos pensar nisso.


O que diferencia é a tradição, a luta dos nossos antepassados contra a natureza e nossa própria natureza, buscando o conforto, segurança e Deus.

Abrindo mão e justificando sem base moral para se apropriar daquilo que não quer ou se recusa a aprender, abre-se um terreno para o caos. É uma semente plantada para crescer na insegurança e desconforto sem se importar com o outro.


O que percebo nesse discurso é se aproveitar da inocência de um grande público, explorando suas mágoas pontuais, inseguranças e necessidades urgentes.


Essas pessoas na maioria não conseguiram atingir um nível de compreensão na aprendizagem ou, desprezam conteúdos que não estudaram com a intenção de encontrarem um caminho mais rápido para encantamento, possivelmente com a intenção de atrair seguidores, já que não conseguiram por mérito próprio.

Sabe que existem coisas que nem sabemos que existem e são importantes para nossa evolução?

Ouvi também que qualquer pessoa pode ser designer. Sou designer de moda formada, fiz faculdade, pós graduação e mestrado nessa área. Trabalho ativamente desde 1993 como designer.

Apesar de entender de desenho, proporção, ergonomia entre outras várias disciplinas que aprendi, ajustar a planta baixa da minha casa em construção não me faz uma arquiteta. Somente minha arquiteta soube colocar todos meus sonhos nos 508 metros quadrados de forma harmônica e correta, para que minha casa se tornasse um lar.


Ser designer não é apenas "criar" uma receita.

Quando desenvolvo uma peça levo em consideração diversos detalhes.


Primeiro, por ser designer de moda, meus projetos sempre farão parte de uma coleção e ele será um personagem em um cenário pesquisado por mim na história que quero contar.


Estudarei o local onde vive ou se situa, cultura, expressão, cartela e harmonia de cores, formas, materiais, reprodutibilidade, ficha técnica e sempre será de acordo com o público do lojista afinal, o objetivo do lojista é vender fios não é mesmo? E o seu objetivo? Não é vender seu amigurumi?


Por isso, minha responsabilidade vai muito além de fazer somente o que quero e muitas vezes me adequo ao que o cliente precisa (mesmo quando ele não sabe dizer naquele momento).

Sempre busco conferir minha personalidade aos meus projetos e não é apenas fazer uma receita, o desafio é o conceito e se está de acordo com as questões do design.

No artesanal entra mais um ingrediente nessa fórmula.

A emoção em fazer algo com as mãos é inebriante. Pegar um fio, tecido, base de sabonete, linha de bordado ou papéis e ver se transformar na sua frente é algo inexplicável e é muito poderoso, nos faz sentir donos daquele projeto, mesmo que não tenha sido idealizado por nós.


Temos que ter respeito pelas profissões e seus profissionais que estudaram, se aperfeiçoaram e aplicaram seus conhecimentos adquiridos em sala de aula durante uma vida inteira!

Podemos ser autodidata? Claro que sim! Mas isso não dá o direito de desmerecer uma profissão e achar que pode se apropriar do título a não ser Doutor Honoris Causa, onde outros especialistas te darão o título se assim merecer pelo seus estudos.


O assunto aqui vai além do tal "roubo" de receitas e sabe que entendo muito essa necessidade?


Voltando à tradição, hoje problematizam tudo mas também temos muito conteúdo disponível como nunca tivemos na humanidade.

Empresas e profissionais oferecem um conteúdo imenso para que todos nós possamos nos aprimorar. Com a atual situação, a difusão de informação por meios digitais alcança um número infinitamente maior e me fala, como quer se destacar nisso tudo?


Ao mesmo tempo que temos tudo à disposição, tudo está à disposição de todo mundo e a concorrência também cresce exponencialmente. Não adianta achar que só você encontrou aquela referência escondida lá no Pinterest e que poderá dizer que é sua. Todo mundo está vendo a mesma coisa.


Sabe o que é diferente? Você ver o mesmo que o outro mas saber interpretar de acordo com sua história!

E voltando lá no título deste post.

Uma das coisas que mais me faz avançar nas minhas ideias é a provocação.

Construtiva ou não, ambas me fazem pensar muito sobre o que estou fazendo e se o que faço é o melhor de mim para os outros.

O que me move é o desejo de pesquisa, estudos, culturas diferentes mas ser desafiada ou provocada é o combustível mais precioso!


Por isso, continuarei a assistir e acompanhar lives e pessoas que não parecem, ao meu ver, interessadas em propagar coisas boas para a humanidade. Essas pessoas me dão a oportunidade de conhecer o lado obscuro do ser humano e buscar nisso, uma fonte de inspiração que quem sabe, acenda as luzes para mais pessoas.


Interessante ler:


Walter Benjamin: Aura

está relacionada à unicidade, autenticidade e tradição de uma obra, ou seja, o que o autor chama de “aqui e agora”, no caso a sua essência. ... A aura, portanto, só deixa de estar presente na era da reprodutibilidade técnica.


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