Aprendizado


Ratinha com mais de 40 anos feita por mim.

Estava aqui pensando e lembrei o que foi mais difícil para mim fazer no crochê.

Meus dois primeiros amigurumis fiz há mais de 40 anos e desde aquela época até quando entrei na primeira empresa de fios, tinha uma forma muito particular de construção, nada a ver com a contagem de pontos que acredito, a maioria usa atualmente.


Fiz uma ratinha e um palhacinho quando devia ter uns 12 anos. A ratinha fiz com fios bem fininhos que ganhei da minha vizinha espanhola e crochetei do meu jeito, sem saber regra alguma e enchi com algodão, nem sei se nessa época existia fibra siliconada.

O palhacinho usei um fio meio brilhante e não terminei seu cabelo, provavelmente não tinha nenhum fio que achasse adequado nessa época.



Fazia crochê de vez em quando e na maioria das vezes, tentava fazer um bonequinho ou algo para meus gatos e bonecas.


Uma vez resolvi fazer tricô com o ponto proporcional ao tamanho das minhas Barbies e usei palitos de dente, até que deu certo!


Não me lembro da minha mãe me mostrando como fazia, provavelmente ficava olhando e depois copiava. Só lembro que ela me ensinou como fazer um sapatinho de bebê e fiz um só, na época tinha uma preguiça imensa de repetir uma peça e isso acontece até hoje.


Sei que se usasse receitas de outros artesão aprenderia mais rápido muita coisa, mas sou do tipo que vai mudando tudo, mesmo uma receita de bolo ou pão, acabo fazendo diferente da original e isso nem sempre dá certo.



Por isso, assumi minha falta de vontade de reproduzir receitas e continuo fazendo do meu jeito, claro que agora sigo as regras de contagem de pontos, pois além de dar mais certo, está de acordo com o que a maioria faz e isso facilita muito o ensino.

Digo isso porque antes fazia meus bonequinhos a partir de uma forma oval, por não gostar de cabeças redondas e para ensinar amigurumi em workshops, percebi na prática que em uma turma com todo tipo de conhecimento, essa forma é bem complicada e não esperada.


A forma oval foi o mais difícil de aprender. Lembro que cheguei a chorar pelo desespero de não entender a receita de uma colega. Era tão confuso que eu não conseguia de forma alguma decifrar.


E aí entra o design. Mesmo não sendo uma especialista em todos os pontos e formas do crochê, busquei uma solução lógica para aquela forma oval, para poder passar adiante o conhecimento de forma clara e simples.


Não sou adepta de complicar para parecer que sei mais que os outros, pelo contrário. Todas às vezes que estou projetando algo e começa a ficar confuso paro, analiso e busco uma forma mais simples para que todos entendam. Design.


Em uma das faculdades onde lecionei computação gráfica, presenciei uma professora desenhando um travete no CorelDraw. Ela fez um rabisco com a ferramenta Mão Livre usando o mouse.


Travete é a costura de reforço no cantinho do bolso

O movimento teria que ser muito, mas muito preciso para que o travete ficasse razoável e era assim, que ela ensinava e claro, os alunos sofriam tremendamente para repetir o exercício. Desnecessário.

Como uso o CorelDraw desde 1993 e já tinha escrito pelo menos um dos meus livros na época sobre o assunto, fiquei pensando qual o motivo de complicar algo que era tão simples.


Não entrarei em detalhes, mas eu fazia o travete de forma que qualquer aluno conseguiria desenhar sem sofrimento algum e sempre ficaria perfeito. Sempre deu muito certo.



No ensino secundário era excelente em física e química e cheguei a dar aulas particulares para minhas colegas de classe. Sempre um pouco atrapalhada na matemática, mas excelente em compreender a lógica dos exercícios.

Para mim nunca deu certo "decorar" nada, se existe uma lógica, aprendo bem rápido mas se não, dá um nó na minha cabeça e acredito que isso é que faz meus livros de computação gráfica terem tanto sucesso.


Nos meus livros imagino uma pessoa que nunca teve contato com a computação gráfica, desenvolvo os textos e exercícios com base nisso. Etapa por etapa de forma crescente e sempre buscando uma explicação simples.

Me preocupo com o resultado, não complico mais do que o necessário.

O mesmo ocorre quando ensino sobre criatividade. Me imagino no lugar da pessoa, ofereço diversos caminhos a partir do que "sinto" no aluno.

Essas aulas começaram em 1993 ao ser assistente do meu professor de estilo na faculdade e continuei com as aulas até 2016 em faculdades e hoje, continuo no artesanato.


Até a última aula em lives no Instagram, havia dito que somente duas pessoas não conseguiram aprender comigo durante todos esses anos. Uma identifiquei o motivo na época mas a outra, que considero muito talentosa, sempre foi um mistério sua desistência.

Nessas aulas falo sobre "indutores criativos" de acordo com Henrique Szkló que incluí nas minhas aulas.

Nunca havia pensado que a raiva e a frustração poderiam se tornar indutores para alguém, mas isso aconteceu recentemente e fiquei muito feliz!

A pessoa, mesmo que os motivos não sejam tão bacanas no momento, conseguiu finalmente aprender a desenvolver suas peças e mais, entendeu o que é uma coleção.

Ainda que não seja 100% original e está apoiada na ideia de outra obra, vejo que ali existe um caminho.


Acredito como professora que em breve serão projetos mais próximos do autoral. Espero que continue, mesmo sabendo que ao final, está aprendendo aquilo que não soube perceber e não seja grata pelo conhecimento por enquanto.


Sobre a receita da forma oval no crochê da colega, foi como o desenho do travete.

A receita que recebi era incompreensível e eu não conseguia entender de forma alguma afinal, era iniciante nas regras do amigurumi mas não do design e isso não foi respeitado ou, a colega não sabia mesmo ser clara em suas explicações.


Por isso, me acalmei e me esforcei para entender a lógica assim como, a aluna que teve dificuldade em aprender criatividade.

Acredito que todos somos capazes quando nos dedicamos. Sempre gostei muito de desenhar, amo computação gráfica e fazia crochê, tricô e bordado às vezes como diversão. Quando me deparei com o crochê de forma profissional, decidi ser excelente na técnica e claro, na criatividade e ser designer e ilustradora, ampliou tremendamente minha visão sobre o universo craft.


O mais importate é criar meus mundos e me divertir e sou reconhecida pelo meu trabalho.